Duas denúncias de distribuição de remédios do chamado "kit Covid", que não possuem eficácia comprovada e têm uso desaconselhado pela ciência, estão sendo investigadas pelo Ministério Público de Pernambuco (MPPE). Os casos estão sob apuração na rede privada de saúde de Olinda e na rede municipal de Pedra, no Agreste do estado.
Em 23 de março deste ano, a Associação Médica Brasileira (AMB) divulgou um boletim no qual condena, entre outros pontos, o uso de remédios sem eficácia contra a Covid-19.
O posicionamento é oposto a um anterior, de julho do ano passado, quando a entidade defendeu a "autonomia do médico" ao receitar os medicamentos.
Segundo a Ouvidoria do Ministério Público de Pernambuco, em Olinda, a denúncia seguiu para a Promotoria de Defesa do Consumidor.
Foi aberto um procedimento para investigar o caso de um hospital da rede privada em que teria sido prescrito o medicamento com hidroxicloroquina para paciente com Covid. O nome do estabelecimento não foi divulgado.
Em Pedra, uma notícia de fato foi instaurada para investigar a denúncia. Na cidade, nas ações contra a Covid, estaria sendo distribuída nos postos de saúde da Família (PSFs) a medicação ivermectina.
É um vermífugo indicado pra infecções, principalmente no intestino. O MPPE informou que serão pedidos esclarecimentos à prefeitura.
A ivermectina e a hidroxicloroquina não tem eficácia comprovada para tratamento nem prevenção da doença.
Em São Paulo, por exemplo, é investigado o uso de medicamentos do "kit Covid" como causa da morte de três pessoas, além da necessidade de transplante de fígado por um quarto paciente.
O G1 cobrou esclarecimentos ao Conselho Regional de Medicina, para saber qual o posicionamento das autoridades locais sobre o uso de remédios sem eficácia comprovada, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.
A reportagem do G1 também procurou a prefeitura da cidade de Pedra, mas não recebeu retorno até a última atualização desta reportagem.
Sem exame, sem eficácia
Uma pessoa que teve Covid-19 informou que procurou um hospital de Pronto Atendimento do sistema Hapvida na Caxangá, na Zona Oeste do Recife, e teve prescrito um kit de comprimidos de hidroxicloroquina.
"Eu estava com uma ardência no nariz quando espirrava. Não tinha sequer perda de olfato e paladar. Eu disse à médica e ela não passou nenhum exame. Disse que era Covid e que eu passasse na farmácia. Lá, já estava preparado um kit com cada comprimido separado por dia. Não pediu teste rápido nem solicitou exame RT-PCR", afirmou a pessoa, que preferiu não ser identificada.
A pessoa afirmou, ainda, que fez um teste do tipo RT-PCR através da ferramenta Atende em Casa, gerenciada pelo poder público.
"Eu, obviamente, não tomei os comprimidos. Marquei o teste pela prefeitura e cumpri os 15 dias de isolamento, como manda o protocolo. O exame deu positivo. Felizmente, não tive nenhum sintoma grave e pude voltar às atividades normalmente", declarou.
A hidroxicloroquina é indicada pra doenças autoimunes como artrite e lúpus, além da malária. O medicamento não tem eficácia comprovada pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
Por meio de nota, o Sistema Hapvida disse que "a prescrição é um ato da soberania médica, celebrado em consultório entre médico e paciente" e que "cabe ao médico eleger a conduta para cada um". Além disso, o sistema afirmou que, em sua experiência, "não há registros de internações resultantes de qualquer efeito colateral pelo uso do medicamento".
Por fim, o Hapvida disse que "acompanha atentamente a jornada de todos os pacientes até o desfecho de cada caso".
G1



