A passagem à decisão é uma façanha. Jamais o Qatar tinha ido além do quinto lugar (em 1984 e em 1988) em suas nove participações na mais importante competição do continente. Mais que isso, detém o melhor ataque (16 gols marcados) e a melhor defesa (nenhum gol sofrido). Pelo que fez até agora, chegará à final desta sexta-feira (1º), ao meio-dia no horário de Brasília, não como azarão, mas em condições de fazer uma partida de igual para igual com o Japão, nação mais vezes campeã da Copa da Ásia, quatro vezes (1992, 2000, 2004 e 2011).
Na semifinal, diante da seleção local, os qatarianos tiveram mais problemas com a ira da torcida (38.646 torcedores estiveram no estádio Mohammed Bin Sayed) do que com o oponente. Houve sonora vaia ao hino do Qatar, antes do início da partida desta terça (29), em Abu Dhabi. Motivo: os países não têm boas relações diplomáticas. Desde 2017, os Emirados Árabes boicotam comercialmente o Qatar, acusado de dar suporte a ações terroristas. Os visitantes, entretanto, não se abalaram e abriram 2 a 0 no primeiro tempo, gols de Boualem Khoukhi, em falha do goleiro Khalid Eisa, e do artilheiro Almoez Ali (seu oitavo na competição). Na celebração, Ali se dirigiu à torcida emiradense e fez um gesto pedindo silêncio. Relato da agência de notícias Reuters diz que houve uma chuva de sandálias na direção dele, atiradas pelos revoltados torcedores.
O lançamento de objetos no gramado (além de calçados, garrafas e copos), com intuito de atingir os atletas do Qatar, repetiu-se no segundo tempo, depois dos gols do capitão Hassan Al-Haydos, aos 35 minutos, e de Hamid Ismail, nos acréscimos -ambos festejaram batendo no peito e exibindo o escudo da seleção. Uma imagem mostra o volante Salem Al Hajri no chão, depois de ter sido supostamente atingido por uma garrafa. A provocação dos jogadores do Qatar e a tentativa de agressão dos torcedores deverão ser analisadas pela Confederação Asiática de Futebol, e os Emirados Árabes provavelmente sofrerão alguma sanção.
A goleada ante os anfitriões do torneio levou centenas de pessoas à noite às ruas de Doha, capital do país, para festejar a classificação à final, como se fosse um título. A verdade é que o Qatar, mesmo que não supere o Japão (que é o outro convidado da Copa América, que começa em junho), a não ser que sofra uma goleada vexatória, algo improvável, sairá muito por cima da Copa da Ásia. Pois até o vice-campeonato será considerado o melhor resultado da história da seleção de futebol do país, cujas maiores conquistas são três Copas do Golfo (1992, 2004 e 2014), torneio de relevância limitada disputado pelos países do Golfo Pérsico.
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