Por que este neurocientista passa os dias fazendo cócegas em ratos

sexta-feira, abril 13, 2018
Em um canto do laboratório do Centro Bernstein para Neurociência Computacional, no prédio seis do campus da Universidade Humboldt, em Berlim, o neurocientista Shimpei Ishiyama dedica parte de seu tempo a fazer cócegas em ratos. Nesta rotina pouco ortodoxa, o riso dos roedores fornece ao pesquisador informações importantes sobre as emoções positivas no cérebro.

Estudar emoções positivas, ele defende, é importante porque desejamos tê-las em nossas vidas. Cientificamente, esse também pode ser o caminho para entender melhor as emoções negativas e as doenças a elas associadas.

"Os cientistas trabalham muito em relação ao mau humor associado à depressão, mas não sabem tanto sobre os mecanismos cerebrais da felicidade ou do riso, que faltam na depressão. Estudar os mecanismos cerebrais das emoções positivas pode eventualmente nos ajudar a entender como elas são suprimidas, ou como obter a felicidade na depressão", argumenta o neurocientista.

Para um dia atingir esse nível de conhecimento, Ishiyama busca esclarecer perguntas mais simples como: por que as cócegas provocam risos? As risadas causadas por cócegas são diferentes daquelas baseadas em humor? Por que não podemos fazer cócegas em nós mesmos? Até o momento, a pesquisa encontrou algumas respostas relevantes sobre um tema debatido há mais de dois mil anos.

Um debate antigo

Em "Das Partes dos Animais", escrito por volta de 350 antes de Cristo, o filósofo Aristóteles afirmou que as cócegas "perturbam a ação mental ao ocasionarem movimentos independentes de vontade". O sábio grego relacionou o fenômeno à "sensibilidade" da pele humana.

Alguns milênios depois, o biólogo evolucionista Charles Darwin e o fisiologista Ewald Hecker defenderam a existência de uma conexão entre humor e cócegas, uma vez que muitas pessoas riem ao serem estimuladas desta forma.

Ishiyama marcou sua contribuição na área com a modernidade já a seu favor. Com equipamentos para medir a atividade cerebral de ratos, ele pôde avançar em pesquisas iniciadas na década de 1990, à época limitadas pela ausência de tecnologia adequada. Seu estudo acabou identificando a parte do cérebro dos roedores responsável pela sensação de cócegas e conseguiu desencadear "risadas" nos ratos apenas com estímulos elétricos, sem tocá-los.

O riso dos ratos estudados possui uma frequência tão alta que o ouvido humano sequer é capaz de escutá-lo. Suas vocalizações ultrassônicas ultrapassaram a frequência de 50kHz, enquanto a nossa audição percebe sons de até 20kHz.

Esses ruídos indicam uma resposta emocional positiva às cócegas ("formas primitivas de alegria", em termos técnicos). Ou seja, há indícios de que os ratos gostam de sentir cócegas. "Eles também vocalizam quando recebem alimentos, água com açúcar ou quando interagem com amigos ratos", explica Ishiyama.

GLOBO.COM

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