O Departamento de Justiça prendeu Vincent Ramos no último dia 7 de março, na cidade de Bellingham, no Estado de Washington, junto com outras quatro pessoas ligadas à Phantom Secure, uma empresa de telefonia com sede no Canadá.
A companhia está em destaque por ter ganhado "dezenas de milhões de dólares" vendendo celulares BlackBerry modificados e personalizados para o Cartel de Sinaloa, de acordo com as autoridades.
Esta é a primeira vez que a agência do governo americano acusa uma empresa por fabricar tecnologia criptografada para uso de criminosos.
As acusações contra os membros da Phantom Secure incluem organização criminosa e conspiração para ajudar a venda de drogas. Ambos os crimes podem ter a pena máxima de prisão perpétua nos Estados Unidos.
"A Phantom Secure foi projetada para facilitar o tráfico de drogas em todo o mundo", disse o procurador federal americano Adam Braverman à BBC.
"Esses traficantes, incluindo membros do Cartel de Sinaloa, teriam usado esses dispositivos totalmente criptografados para promover suas atividades de tráfico de drogas e evitar a aplicação da lei".
Sem câmeras ou internet
As comunicações através dos telefones da Phantom Secure são gerenciadas automaticamente por meio de servidores no Panamá e em Hong Kong, de acordo com documentos oficiais, tornando os dados mais difíceis de rastrear.
A Phantom Secure também eliminava alguns elementos-chave e funcionalidades do telefone, como microfone, GPS, câmeras (frontal e traseira), acesso à internet e aplicativos de mensagens.
Ele também impossibilitava as ligações de voz e gravação de vídeo. Depois, instalava um software PGP, que permite criptografar cada um dos dados.
Dessa forma, o dispositivo servia apenas para enviar mensagens de texto, mas de forma criptografada e ultrassegura - mais do que um BlackBerry convencional.
"Outras organizações"
Nem a BlackBerry nem a Phantom Secure quiseram comentar o assunto quando foram procurados pela BBC. Os investigadores não explicaram se a BlackBerry colaborou na descoberta do caso. Mas Braveman diz que ela não é a única empresa cujos telefones são modificados e usados para fins ilegais.
"Sabemos que há organizações dedicadas a isso. Continuaremos investigando não só a Phantom Secure, mas qualquer outra empresa que forneça dispositivos de comunicação a organizações criminosas", disse ele à BBC.
O procurador acrescentou que, embora praticamente qualquer telefone inteligente disponível no mercado ofereça criptografia difícil de quebrar - além dos aplicativos do Facebook, Google e Apple - a Phantom Secure deve ser responsabilizada pela forma como os clientes utilizam seus aparelhos.
"A diferença é que esta empresa foi projetada especificamente para ajudar o tráfico internacional de drogas", diz Braveman.
"A única maneira de se obter um desses telefones é sendo indicado por outra pessoa".
Isso porque, para se tornar um cliente da empresa, é preciso que outro usuário responda por você, diz o procurador. Este sistema, de acordo com as autoridades, seria uma maneira de impedir que as forças policiais se aproximassem da Phantom.
A companhia se define em seu site como "o serviço de comunicações mais confiável do mundo".
Seus dispositivos são vendidos por assinatura e custam entre US$ 2 mil e US$ 3 mil por cerca de seis meses de uso.
Agentes americanos estimam que existem cerca de 20 mil celulares modificados pela Phantom Secure em circulação em todo o mundo.
As autoridades responsáveis por cumprir a lei ficaram frustradas diversas vezes com a forma como a tecnologia criptografada dificulta o acesso às comunicações entre suspeitos.
Em 2016, a Apple se recusou a fornecer uma ferramenta para permitir ao FBI desbloquear um telefone que pertencia a Syed Rizwan Farook, um homem acusado pelo tiroteio em massa em San Bernardino, na Califórnia, onde 14 pessoas morreram.
Em um comunicado, um porta-voz do FBI reiterou a preocupação da agência de que os criminosos podem "passar despercebidos" e se esconder atrás de tecnologias sofisticadas.
"Quando os criminosos se refugiam na escuridão e as forças da ordem não podem monitorar seus telefones ou acessaras provas, os crimes não podem ser resolvidos e isso pode resultar em vidas perdidas".
Em vez disso, os ativistas pela privacidade argumentam que eliminar ou simplesmente o enfraquecer a criptografia seria um risco para o roubo de dados e à vigilância, não só para criminosos, mas para todos.
G1



