Representantes de terreiros fazem ato contra vereadora evangélica do Recife que citou 'maldição de Iemanjá'

quarta-feira, fevereiro 21, 2018
Sacerdotes e sacerdotizas de terreiros de Pernambuco realizaram uma manifestação na Câmara dos Vereadores do Recife, nesta quarta-feira (21), contra a publicação feita pela vereadora Michele Collins (PP) em uma rede social criticando o culto ao orixá de matriz africana Iemanjá. Ao todo, segundo os organizadores, o encontro reuniu representantes de cerca de 30 terreiros do estado.

Durante o encontro, foram entregues, nos gabinetes dos vereadores, cópias da carta aberta de repúdio contra a publicação, alegando crime de racismo e sentimento religioso.

Chefe do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial, da Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança e Juventude (SDSCJ), Mãe Elza de Iemanjá afirma que um dos objetivos do encontro é incitar debates sobre intolerância religiosa em todos os municípios do Grande Recife. Segundo ela, a publicação de Collins explicita uma questão de raça, intrínseca à religiosa.

"O estado é laico e temos um conselho ativo no estado, norteado por um plano nacional de ação sobre assuntos acerca dos povos de terreiro, que são compostos majoritariamente por pessoas negras. Iemanjá é um ser divino e eu jamais vou dizer que Deus lançou a mão para amaldiçoar a terra. O que ocorreu foi um crime, que deve ser observado de perto", defende Mãe Elza.

No Diário Oficial do dia 10 deste mês, o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) resolveu instaurar um inquérito civil para investigar se a vereadora cometeu o crime de violação à liberdade religiosa. De acordo com o texto do MPPE, assinado pelo 7º promotor de Justiça de Defesa da Cidadania, Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Westei Conde, Michele Collins seria notificada a comparecer à promotoria para prestar esclarecimentos.

Para Antônio de Xangô, pai de santo em um terreiro de Cajueiro Seco, em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, o manifesto explicita o incômodo da comunidade de religiões de matriz africana por causa da escolha de palavras na postagem da parlamentar.

Acompanhado de uma foto, o texto de Michele dizia: "Noite de Intercessão no Recife, orando por Pernambuco e pelo Brasil, na Orla de Boa Viagem, clamando e quebrando toda maldição de Iemanjá lançada contra nossa terra em nome de Jesus. O Brasil é do Senhor Jesus. Quem concorda e crê diz amém."

"Dizer que as praias estão sujas por Iemanjá é um pensamento errado sobre a nossa religião. Cultuamos a natureza e me sinto bem sendo filho de Iemanjá. Ninguém é obrigado a aceitar, mas queremos respeito, porque todo mundo tem direito a fazer seus cultos. Ela [Michele] foi infeliz na escolha de palavras e não podemos ficar quietos, para não voltarmos ao nível de preconceito que sofríamos antes", pontuou Pai Antônio.

Por telefone, a assessoria de comunicação de Michele Collins informou que a vereadora recebeu a notificação do Ministério Público e o caso foi encaminhado ao setor jurídico da parlamentar, que responderá ao processo por meios legais.

Ainda sobre o caso, Mãe Elza de Iemanjá falou sobre o impacto de postagens realizadas por integrantes do poder Legislativo. "Nossos jovens usam fios de contas e tecidos estampados, para retratar nossa identidade. É importante dizer que o preconceito não mata um, mas mata milhares. Deus não manda perseguir", finalizou.

Entenda o caso

No dia 5 de fevereiro, a vereadora Michelle Collins publicou, em sua página oficial no Facebook, uma mensagem em que diz que “estaria clamando e quebrando toda maldição de Iemanjá lançada contra nossa terra em nome de Jesus”. Acompanhado de uma foto que mostra várias pessoas em uma praia, a postagem da parlamentar, já deletada de suas redes sociais, se referia ao evento "Noite de Intercessão no Recife, orando por Pernambuco e pelo Brasil’" realizado na orla de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife.

Uma dia depois da postagem, a vereadora divulgou uma nota de desculpas. "Diante do exposto sobre uma postagem realizada em suas redes sociais, a vereadora missionária Michele Collins esclarece que em nenhuma momento teve a intenção de ofender ou propagar qualquer mensagem de ódio religioso. Todos sabem que a missionária é veementemente contra qualquer intolerância religiosa, inclusive já deletou a postagem de suas redes sociais, diante dessa falha na elaboração do texto. A vereadora missionária Michele Collins pede desculpas aos que se ofenderam", traz o texto.



G1PE

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