Não só porque Portugal nos convida à boa mesa, ao bacalhau, aos diversos e bons vinhos, aos doces convençais, às ameijoas a Bulhões Pato, às enguias fritas ou ao delicioso Pregado. Mas, sobretudo, pela história que nos remete às nossas raízes, pela rica cultura de seu povo. E por que Portugal é uma nação que ama seu passado. E isso a torna especial.
Andar pelas ruas de Lisboa, do Porto, Óbidos ou de Coimbra é uma imersão cultural, uma autêntica aula de preservação da memória. Memória que nós aqui destruímos para erguer arranha-céus. Percebe-se isto numa simples parada no café Martinho da Arcada, em Lisboa, onde logo alguém lhe conta que ali frequentava o poeta Fernando Pessoa. E se você entra na Universidade de Coimbra, e sabem que você é brasileiro, vão logo lhe indicar uma visita à fabulosa biblioteca Joaninha, construída com a madeira brasileira transportada pelos navegadores portugueses.
Mas o fato é que a geografia portuguesa, com Lisboa num extremo e o Porto no outro, tende a nos levar a roteiros meio engessados. Ignoramos pequenas pérolas na região central de Portugal, tão rica e diversificada. Uma visita a cidades como Leiria e Aveiro entre tantas outras, leva a surpresas gastronômicas, culturais e arquitetônicas. Leiria Cortada pelo Rio Lis, Leiria se destaca como uma das dez melhores cidades de Portugal para se viver. Não é pouca coisa quando sabemos que o país detém 308 municípios. Na categoria cidade para visitar, ocupa a sexta posição. E a visita pode começar pelo Castelo de Leiria, que do alto de uma colina observa a tudo e a todos, imponente e solitário. O castelo é um símbolo monumental da história da cidade e guarda no interior de suas muralhas vestígios das diversas fases de sua ocupação, que vão de fortaleza militar a palácio real.
Chama atenção na cidade a Igreja da Misericórdia, recentemente recuperada e transformada em Centro de Diálogo Intercultural, congregando as culturas Cristã, Judaica e Islâmica. Localizada no centro da antiga área dos Judeus, integra a Rede de Judiarias de Portugal - Rota de Sefarad, uma associação de caráter público, mas de direito privado, que atua na defesa do patrimônio urbanístico, arquitetônico, ambiental, histórico e cultural, relacionado com a herança judaica.
Saindo da Igreja é fácil seguir um curioso roteiro literário, que leva aos locais em que Eça de Queiroz baseou seu livro O Crime do Padre Amaro, marco inicial do Realismo em Portugal. A rota histórica inclui a casa em que o escritor viveu quando morou em Leiria e que lhe inspirou a conceber a residência da D. Augusta Caminha, citada no livro como nº 9 da Rua da Misericórdia.
“O roteiro literário é iniciativa da Câmara Municipal de Leiria e foi criado para estimular as pessoas a percorrerem a zona histórica da cidade”, me conta Marli Monteiro, diretora executiva do Centro de Turismo de Portugal, com quem tive o prazer de fazer uma deliciosa caminhada pelas ruas de Leiria, lendo trechos do livro de Eça. A ação se integra à Rota dos Escritores, que presta homenagem a Francisco Rodrigues Lobo, Acácio Paiva e Afonso Lopes Vieira, que nasceram na cidade, assim como Eça de Queiroz e Miguel Torga, que ali viveram. As rotas podem ser visitadas de forma guiada ou seguindo a sinalização instalada nas diversas ruas.
Mas Portugal não é só história e gastronomia. Sua natureza também merece atenção. A praia do Pedrógão ou o famoso Pinhal de Leiria são exemplos disto. Pedrógão é um balneário de extenso areal com ótima infraestrutura para camping e diversos espaços de lazer e prática esportiva. Já o Pinhal de Leiria foi plantado no século 13 pelo rei D. Afonso III e sua extensão continuou a crescer ano a ano, sobretudo no reinado de D. Dinis I, que ficou conhecido como o “Rei Lavrador”. Não é à toa que o local também é conhecido como o Pinhal do Rei. Por séculos foi considerado o pulmão de Portugal e, graças à política de se plantar uma árvore a cada que é derrubada, manteve preservada sua extensão. Alguém lembrou da nossa floresta Amazônica? Bom... voltemos a Portugal.
Mas, infelizmente, o incêndio de outubro de 2017 destruiu mais de 80% do pinhal. Agora, o governo português inicia o replantio com outras espécies mais resistentes ao fogo, como o sobreiro. O Pinhal de Leiria teve um papel de destaque num dos momentos chave portugueses: os descobrimentos. As caravelas que descobriram o Brasil foram construídas usando a madeira deste pinhal! Aveiro Aveiro é outro destino interessante. Considerada a Veneza portuguesa, tem como destaque os coloridos moliceiros, embarcações semelhantes às tradicionais gôndolas italianas, que enchem a cidade de romantismo em meio ao clima jovial que predomina devido à sua Universidade, uma das mais conceituadas do país.
Os canais que a cruzam são um convite para navegar, mas o centro da cidade pode ser facilmente visitado a pé ou de Bugas, as bicicletas gratuitas, com uma paradinha para um café com ovos moles - um delicado doce conventual. Há várias lojas que vendem a iguaria, mas a loja Maria Da Apresentação Da Cruz Herdeiros é uma das mais tradicionais e oferece uma receita autêntica. Nesses passeios, aproveite para conhecer o roteiro da Arte Nova. Membro da “Réseau Art Nouveau Network”, em companhia a Barcelona, Bruxelas, Budapeste, Glasgow, Helsínquia ou Havana, Aveiro é considerada cidade-museu da Arte Nova em Portugal. O percurso foi concebido para o ajudar a identificar todos os edifícios e monumentos que ostentam as marcas deixadas por nomes como Ernesto Korrodi, Francisco Augusto da Silva Rocha, Jaime Inácio dos Santos, José de Pinho ou Carlos Mendes.
Quando surgiu na Europa, o movimento da Arte Nova tinha como filosofia: introduzir a arte no dia-a-dia comum, transformando objetos mundanos em verdadeiras obras primas. Foi no início do século XX que o movimento surgiu em Portugal, tendo encontrado em Aveiro ampla aceitação. Curioso verificar que foi graças aos emigrantes que voltavam enriquecidos do Brasil que se deu o estímulo para aprimorar detalhes interiores e exteriores de diversos edifícios espalhados pela cidade dentro deste conceito de arte.
Outro ponto importante para se visitar é o Museu de Aveiro, rico em obras de arte sacra, que foi nas suas origens um convento dominicano, fundado em 1458. A igreja que ele abriga foi construída no reinado de D. Afonso V, cuja filha, a princesa Joana, foi a freira mais famosa. Ali ela entrou em 1472 e só saiu após sua morte, em 1490, sendo posteriormente beatificada. O túmulo de Santa Joana, no coro baixo da igreja, é uma obra de arte de impressionar. Executado pelo arquiteto régio João Antunes, foi totalmente ornamentado com peças de mármore embutidas. Não saia de Aveiro sem ir à praia da Costa Nova do Prado. Localizada no Município de Ílhavo, teve origem a partir da abertura da barra da Ria de Aveiro, em 1808.
A praia é muito procurada para a prática de esportes náuticos, já que é um istmo entre o mar e o Canal de Mira da Ria de Aveiro. Ali existem bons restaurantes especializados em bacalhau, peixe fresco - grelhado ou em caldeiradas - e ainda mariscos da Ria de Aveiro. A “tripa”, um dos mais famosos doces deste local, integra o roteiro gastronômico.
Mas, o que chama mesmo atenção são os “palheiros” - casas com listas verticais ou horizontais intercaladas, que eram antigos armazéns de materiais de pesca ou armazéns de salga da sardinha, atualmente convertidos em agradáveis residências de veraneio. Vão, conheçam e depois me escrevam com suas opiniões. Acho que não irão se arrepender.
FOLHAPE



