“Se você observar, os lábios dos músicos ficam feridos, inchados, no fim do carnaval. Eles saem de um bloco e vão para outro. Tudo isso para divertir o folião", conta o presidente do bloco Pitombeira dos Quatro Cantos, Júlio Silva Filho.
No trombone, Agamenon Lourenço, de 26 anos, brinca que para aguentar tudo isso só sendo 'ninja'. De acordo com ele, há músicos que tocam em três blocos por dia.
“É calor, tem que saber o frevo de cor e ter cuidado para não bater com o instrumento no folião na multidão. São horas tocando. O cansaço bate. Tem que ser mais que ninja para tocar no bloco”.
Músico há 16 anos, ele explica que o segredo para suportar essa maratona é se preparar intensivamente. Os ensaios, que começam em setembro do ano anterior ao carnaval, servem para testar a resistência deles.
“O ensaio tem que ser intensivo, porque, além de muito sol, ainda tem que decorar os frevos. Não temos a partitura durante o desfile. Dependendo da música, uma pessoa pode levar até uma semana para decorar”, conta.
Para aguentar o calor, nem sempre é possível ficar na água. Músico há oito anos, Jonathan Costa, de 22 anos, confessa que toma uma ou outra cerveja na concentração do bloco. “Às vezes, é bom tomar uma cervejinha. Até porque, somos foliões também. É bom para acordar, dar um gás”.
A alimentação, segundo ele, é essencial garantir o desempenho do músico. Durante as festividades de Momo, os cuidados com ela são redobrados. “A gente se diverte muito, mas toma muito cuidado. Nos alimentamos bem com frutas e bebemos muita água por causa do sol”.
Mesmo com tantos cuidados, é impossível resistir ao cansaço. “Eu faço o desfile dos bonecos gigantes de Olinda. Eu acho o pior deles, porque começamos às 9h e só terminamos às 13h. Uma vez, senti uma tontura por causa da mudança de clima”, completa Jonathan, que dita o ritmo da orquestra com a caixa.
E não são apenas os músicos que se preparam para a 'maratona'. Comandando a orquestra que leva seu sobrenome, o maestro Alexandre Botelho relata que a preparação começa cerca de seis meses antes do carnaval.
“Acordo cedo e faço caminhadas para me preparar para a maratona do carnaval, além de muita pesquisa em cima dos compositores de frevo. Tudo isso é para entregar algo que agrade o público”.
Pesando 84 quilos, Anderson da Silva ganha mais 12 quilos durante o carnaval. Carregando a tuba, um instrumento nada discreto, ele enfrenta o exaustivo percurso sem reclamar. Por incrível que pareça, a única preparação dele é a água gelada.
“É cansativo, pesado, mas se eu te disser que esquecemos tudo isso na hora do desfile você não vai acreditar. A animação que sentimos da multidão leva tudo isso embora, nada mais importa”, conclui com sorrido no rosto.
G1PE



