Sentados em bancos de gelo, dezenas de espectadores com roupas grossas assistem, como fazem todos os anos, ao apogeu do inverno em um show musical com instrumentos feitos de gelo. O anfiteatro é um iglu, construído pelos voluntários do Festival de Música de Gelo.
Sob um céu claro, o percussionista Terje Isungset, regente de orquestra neste evento único, golpeia um xilofone, cujas lâminas parecem lingotes de cristal. Neste cenário, Terje e outros três artistas tocam seus instrumentos esculpidos, cujas propriedades se modificam ao entrar em contato com o ar que sopram, o calor de suas mãos e o vento que entra no iglu. "Não imaginam como é difícil tocar instrumentos que vão derretendo", diz o norueguês.
Uma cantora envolve as notas do xilofone com uma melopeia que remetem ao encantamento de um xamã, ou o "joik", o canto dos sámis, povo autóctone do Ártico continental.
Um contrabaixista desliza o arco pelas cordas de seu instrumento, cujo diapasão de madeira fica encerrado em um bloco de gelo. As harmonias parecem às vezes imprecisas, flutuantes, amplificadas pelo espaço e pela reverberação do lugar.
"Estamos em algum lugar entre a arte e a loucura", brinca Emile Holba, fotógrafo britânico que participa na organização deste festival, celebrado nos primeiros dias de fevereiro. "As coisas podem se complicar, os instrumentos podem quebrar, [mas] o público gosta da pureza" das interpretações, assegura.
Em plena noite, um membro do quarteto sopra em uma espécie de trompete longo, similar a um didjeridu australiano ou a um dungchen tibetano.
Pedras de água de fiorde
Quando foi criado em 2006, o festival era realizado em Geila, estação de esqui situada a alguns quilômetros de Finse. Mas esta localidade não oferece mais as condições de frio indispensáveis para o evento.
Até mesmo em Finse, povoado situado na altitude e castigado pelo vento de um glaciar próximo, as mudanças climáticas afetam a qualidade do gelo. "Neste inverno (...) o gelo é muito quebradiço, difícil de esculpir", lamenta Terje Isungset. "É a primeira vez que o vejo nesse estado".
A matéria-prima procede de um fiorde situado a 30 km dali. Cada músico fabrica seu próprio instrumento. Para isso, desbasta um bloco de gelo, corta e esculpe. Primeiro com uma motosserra, depois com uma pedra de moinho e um cinzel. O trabalho é insano, admite Isungset, já que a ideia "consiste em criar algo a partir de quase nada", pedras de água.
Alguns instrumentos são conservados em câmaras frigoríficas durante um ano. Com o transcurso das edições, o festival viu nascer e morrer objetos extraordinários: violões, trompetes, teclados com formas incríveis em um cenário de filme.
Finse é famoso pela beleza de suas paisagens intocadas. As cenas de batalha no planeta Hoth de "Star Wars - O Império contra-ataca" foram filmadas neste povoado norueguês em 1979. "É como outro mundo (...), tem algo mágico aqui", diz Emile Holba.
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