“Todo mundo lá dentro está mal, como se estivessem jogados, sentados em papelão no chão. Quando veem que os pacientes estão nas últimas é que tentam fazer alguma coisa”, denuncia o marinheiro Felipe Daniel.
A Secretaria de Saúde e a fundação reconhecem que há problemas na unidade de saúde, que fica no bairro das Graças, no Recife. Ambas afirmaram buscar solucioná-los.
“Os custos são crescentes, tanto o desenvolvimento das drogas quanto a parte da hemoterapia. Os insumos, os produtos que nós compramos, a técnica melhora e o preço aumenta. O serviço público tem dificuldade de acompanhar essa evolução. É fato que tem uma carência. Sim, ela é real”, apontou a diretora presidente do Hemope, Yeda Maia.
A maioria dos pacientes atendidos no hospital tem anemia falciforme, uma doença hereditária no sangue. Ela provoca fraqueza e dores generalizadas. O remédio mais eficaz para evitar esses sintomas é a hidroxiureia. Quando ele está em falta, as crises só passam com atendimento médico.
“Na farmácia tem. Só que o que tem está disponibilizado para os pacientes que tem leucemia”, contou o paciente Givaldo Joaquim de Oliveira Júnior.
A unidade de saúde é o local onde pacientes com alguns tipos de câncer raros procuram ajuda. Eles deveriam receber os remédios fornecidos pelo Sistema Único de Saúde para o tratamento da doença. Porém, eles quase sempre estão em falta, o que prejudica a continuidade e a eficácia do tratamento.
O aposentado João Carlos Dresh está em tratamento contra o câncer desde 2012 no hospital. Há sete meses não consegue remédio que precisa para ter uma qualidade de vida melhor. “Você vai perdendo a vontade de viver porque vê que está sendo enganado. Com tantos recursos hoje provenientes, meu Deus, não existe explicação porque nós sofremos tanto", lamenta o aposentado.
Investigação
O Ministério Público de Pernambuco vem monitorando a falta de dinheiro para a compra dos medicamentos todo mês na fundação. A promotora Helena Capela acompanha a situação do Hemope há três anos e constatou que o recurso repassado pelo Estado e pelo Governo Federal não é suficiente para pagar todas as contas do hospital.
“É um serviço de referência no estado, com profissionais extremamente capacitados, mas que estão com o número muito grande de pacientes para serem atendidos, com falha na estrutura física, um espaço insuficiente, um número de leitos insuficiente também para o atendimento à população. Então, termina que isso repercute na assistência prestada, que não é uma assistência ideal, com todas essas faltas de recursos financeiros e recursos humanos”, pontuou.
Ela acredita que o melhor caminho para que os pacientes sejam bem atendidos é oferecer o serviço especializado também em outros hospitais. Inclusive, no interior do estado.
“É cobrar que todo o estado de Pernambuco dê a atenção necessária a essas pessoas que tem as doenças hematológicas. Porque essa assistência pode ser prestada por diversos profissionais e não só os hematologistas. Então, tem que haver um treinamento, que o próprio Hemope tem condição de dar, para que toda rede faça um atendimento e preste uma assistência adequada e que não concentre no Hemope, porque vai ocasionar o que vem acontecendo esse quadro de superlotação”, completou.
Corte de gastos
A direção do Hemope afirmou que está tentando se adequar a realidade financeira da instituição. Recentemente, o setor administrativo da fundação se mudou de um casarão histórico alugado, no bairro das Graças, na Zona Norte do Recife, para um prédio na área central da capital pernambucana. A mudança deve gerar uma economia de R$ 500 mil por ano.
A Secretaria Estadual de Saúde disse que está elaborando um plano para descentralizar o atendimento de hematologia. A pasta ainda afirmou que está trabalhando para resolver os problemas de superlotação. Sobre a falta do principal medicamento para anemia falciforme, a secretaria informou que fez a compra, mas que os remédios não chegaram na quantidade pedida. Ela garantiu que vai cobrar da empresa responsável pela distribuição.
G1PE



