Venezuela volta a ficar diante de risco de moratória

sexta-feira, novembro 10, 2017
Em risco de moratória pelo pagamento atrasado de um bônus da petroleira estatal PDVSA, a Venezuela deve quitar nesta sexta-feira (10) outros US$ 81 milhões, a primeira obrigação a ser cumprida desde que o presidente Nicolás Maduro anunciou que buscará renegociar a dívida externa.

Um comitê da Associação Internacional de Swaps e Derivados (ISDA), que agrupa credores privados de dívida, decidiu nesta sexta-feira se reunir na próxima segunda em Nova York para avaliar as consequências do atraso dos pagamentos da PDVSA a seus credores internacionais.

Uma análise negativa da ISDA desencaderia uma moratória e iniciaria o pagamento de CDS (Credit Default Swaps), seguros contratados pelos credores para dívidas não pagas.

O governo anunciou há uma semana que tinha começado a transferência de US$ 1,161 bilhão do bônus 2017 da PDVSA, mas credores não tinham recebido os pagamentos.

Além disso, os US$ 81 milhões de juros do bônus PDVSA 2017 vencem nesta sexta-feira, três dias antes de um encontro com credores dos bônus em Caracas, convocado por Maduro há uma semana, quando anunciou seu plano de renegociar a dívida, de cerca de US$ 150 bilhões.

Devido aos atrasos e títulos a vencer, as agências Fitch, Standard and Poor's e Moody's rebaixaram a classificação da dívida venezuelana, alertando para uma moratória dentro de curto prazo.

"Estamos no fim do jogo e, agora, tornou-se uma questão de dias, não semanas, até que se confirme o não pagamento", opinou a Capital Economics.

O governo deverá pagar, nesta segunda-feira, outros US$ 200 milhões, além dos juros. Ao todo, deve quitar entre US$ 1,47 bilhão e US$ 1,7 bilhão em juros dos bônus até o fim deste ano.

"A 'renegociação e restruturação' da dívida têm muitos obstáculos. O cenário mais possível é uma eventual moratória", disse à AFP Andrea Saldarriaga, analista para América Latina do Atlantic Council.

Sanções dos EUA

As sanções que os Estados Unidos impuseram à Venezuela em agosto impedem que o governo recorra a fontes externas de capital e que investidores americanos negociem a dívida venezuelana.

"Isso dificulta chegar a um acordo com seus credores", opinou Saldarriaga.

Cerca de 70% dos credores de bônus são americanos e canadenses. "A isso se soma a falta de liquidez da Venezuela", acrescentou.

Com a economia devastada e reservas internacionais de US$ 9,7 bilhões, Caracas terá de pagar, em 2018, cerca de US$ 8 bilhões.

Outro obstáculo é que Maduro designou como principal negociador o vice-presidente Tareck El Aissami, incluído por Washington em uma lista de funcionários venezuelanos sancionados.

Na quinta-feira, o governo de Donald Trump acrescentou outros dez funcionários à lista. Além disso, a União Europeia prevê adotar nesta segunda sanções contra a Venezuela.

Maduro acusa os Estados Unidos e seus "comparsas" de uma "perseguição financeira" para asfixiar o país, por ter um governo socialista.

Mas confia em seus aliados China, a quem a Venezuela deve cerca de US$ 28 bilhões, e Rússia, que acertou um acordo de reestruturação de US$ 3 bilhões.

"Maduro pode estar esperando que os credores de bônus pressionem o governo de Trump por algum tipo de isenção", opinou a diretora para América Latina do Eurasia Group, Risa Grais-Targow.

Consequências

O governo venezuelano foi ambíguo em seu plano: fala de "refinanciamento" (oferta de troca de títulos) e de "restruturação" (que obrigaria credores a aceitarem novos termos), segundo o diretor da Ecoanalítica, Alejandro Grisanti.

De acordo com especialistas, para ambos os processos, o país deve mostrar um plano de reformas econômicas. "Deve oferecer garantias de como vai pagar", indicou o economista Orlando Ochoa.

Com a queda dos preços do petróleo, fonte de 96% das divisas do país, o governo reduziu drasticamente as importações para evitar a moratória, provocando uma severa escassez de alimentos e remédios.

De acordo com o Eurasia Group e o IHS Markit, se deixar de pagar, Maduro terá um alívio temporário, com dinheiro para importar bens básicos perto da campanha para as eleições presidenciais de 2018.

Mas, a médio prazo, alertou a Ecoanalítica, uma moratória aprofundaria "a recessão" em um país com quatro anos de retração (36%), à beira da hiperinflação e com uma produção petroleira que caiu 23% desde 2008, a 1,9 milhão de barris diários.

"A longo prazo, as consequências financeiras agravariam o descontentamento social e potencialmente enfraqueceriam o apoio interno ao governo", opinou Grais-Targow.

A Venezuela ainda enfrentaria processos internacionais e o embargo de ativos da PDVSA no exterior, como a Citgo, filial da petroleira nos Estados Unidos.



G1

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