"Hoje apoiamos a luta de um povo por sua liberdade", resumiu o presidente da Eurocâmara, Antonio Tajani, ao anunciar o veredito que, aos olhos da esquerda radical europeia, supõe uma "instrumentalização" do prêmio.
Proposto pela principal bancada do Parlamento, o Partido Popular Europeu (PPE, direita), e de seus sócios liberais do ALDE, a "oposição democrática da Venezuela" recebeu o reconhecimento à defesa dos direitos humanos e às liberdades.
Os opositores já concorreram em 2015 sem vencer o prêmio, com uma candidatura da Mesa da Unidade Democrática (MUD). E o conquistaram dois anos depois, mas encarnados no Parlamento e nos "presos políticos" como Leopoldo López e Antonio Ledezma.
O reconhecimento é feito em plena crise na MUD. Um de seus líderes, Henrique Capriles, anunciou a sua retirada depois que quatro dos cinco governadores opositores eleitos tomaram posse ante a governista Assembleia Constituinte, que nem a oposição nem a União Europeia (UE) reconhecem.
O líder do Parlamento venezuelano, Julio Borges, destacou que este "apoio da comunidade internacional" deve servir para reunificar a oposição. "Temos que ficar de pé e consolidar tudo o que avançamos", destacou.
A equipe de imprensa de Leopoldo López destacou que o político não parou "sua incansável luta, resistência e acompanhamento do povo venezuelano na conquista da liberdade".
A crise nesta heterogênea coalizão consolida Maduro visando as próximas eleições municipais e as presidenciais de 2018.
Decisão polêmica
Desde 2007, o Parlamento Europeu aprovou uma dezena de resoluções, em especial para pedir a libertação dos "presos políticos". A eleição da Assembleia Constituinte, estimulada por Maduro, provocou um endurecimento de sua postura nos últimos meses.
O prêmio não deixou ninguém indiferente. Apesar dos aplausos, risos vindos das bancadas da esquerda radical interromperam Tajani quando indicava que este prêmio "não tem cor política" e um grito de "Não passarão!" foi ouvido no hemiciclo.
Os parlamentares europeus da esquerda radical pediram um boicote da cerimônia de entrega, em 13 de dezembro, ao criticar a concessão "deste prêmio à parte mais violenta da oposição venezuelana" em um momento em que o diálogo "abre passagem", nas palavras da deputada Marina Albiol.
O símbolo da sintonia entre a maioria de centro-direita e direita da Eurocâmara e a oposição venezuelana é o encontro em maio de Tajani e Borges, após o qual o italiano urgiu à UE que adotasse "sanções contra altos cargos do governo venezuelano".
Os países da UE já estabeleceram um marco jurídico de sanções contra responsáveis pela violação dos direitos humanos na Venezuela, mas os debates sobre a possível aprovação em novembro continuam com a incógnita sobre a inclusão de uma lista de sancionados.
Quintos latino-americanos
A polêmica pode não parar por aí. Uma recente solicitação dos eurodeputados pede a análise da retirada deste prêmio concedido em 1990 à líder birmanesa Aung San Suu Kyi por seu atual silêncio sobre a perseguição da minoria rohingya como membro do governo birmanês.
Nelson Mandela (1988) e Malala Youfsafzai (2013) são outros ganhadores deste prêmio, que leva o nome do cientista soviético dissidente Andrei Sakharov, e que a Eurocâmara concede desde 1988 aos que deram "uma contribuição excepcional à luta dos direitos humanos no mundo".
A oposição venezuelana se soma à lista de latino-americanos premiados, iniciada em 1992 com as argentinas Mães da Praça de Maio e ampliada com os dissidentes cubanos Guillermo Fariñas (2010), a associação Damas de Branco (2005) e Oswaldo Payá (2002).
A guatemalteca Aura Lolita Chávez Ixcaquic, símbolo da luta dos povos indígenas, e o jornalista Dawit Isaak, preso na Eritreia, também venceram o prêmio de 50.000 euros (58.800 dólares), proposto pelos Verdes e social-democratas, respectivamente.
Ambos também estão convidados a participar da cerimônia de entrega. Em 2016, as yazidis Nadia Murad e Lamiya Aji Bashar, sobreviventes das atrocidades do grupo extremista Estado Islâmico, pediram aos eurodeputados que trabalhassem para impedir os crimes do EI.
FOLHAPE



