Ministro do STF diz que levará em conta a segurança pública para decidir sobre volta de traficantes de presídios federais

sexta-feira, setembro 29, 2017
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes se posicionou, em entrevista à TV Globo, sobre o habeas corpus coletivo pedido pela Defensoria Pública da União para que detentos há mais de dois anos em penitenciárias federais voltem para cadeias em suas cidades de origem. Relator do caso, ele disse que cabe ao STF analisar a legalidade e levar em conta na decisão a segurança pública.

"O que o Supremo Tribunal Federal deve analisar é exatamente a legalidade ou não. E obviamente, dentro da legalidade, o Supremo Tribunal Federal, e especificamente, neste caso, eu, por ser o relator, leve em conta a questão importantíssima que é a segurança pública", declarou Moraes.

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, informou que pediu uma reunião com o ministro Alexandre de Moraes. O Ministério Público Federal quer ser ouvido antes de o relator tomar uma decisão.

Não há data para o julgamento do habeas corpus. Se a medida for autorizada pelo Supremo, 55 criminosos considerados perigosos voltariam para os presídios fluminenses – entre eles Beira-Mar, Elias Maluco e Nem (veja a lista abaixo).

A notícia foi antecipada pelo jornal O Globo e confirmada pela TV Globo, no dia em que as Forças Armadas deixaram a Rocinha, ocupada por uma semana para conter uma guerra entre traficantes que tem Nem como pivô.

Segundo o G1 apurou, o defensor Anginaldo Oliveira Vieira argumenta no pedido ao STF que o encarceramento em presídios federais deve ser medida "excepcional e por prazo determinado", já que dificulta a ressocialização do preso, que, com o isolamento, fica distante da família e sujeito a problemas mentais como alucinações, psicose e desorientação.

"A permanência de presos por prazo superior a 720 dias não atende ao princípio da ressocialização da pena, é causa da degeneração da saúde mental dos detentos e não atende aos princípios constitucionais que asseguram ao preso integridade do seu direito à vida e à saúde", explicou o defensor público federal.

A ação foi sorteada para análise do ministro Alexandre de Moraes e inclui um pedido de liminar – decisão mais rápida, sem necessidade de consulta às partes ou outros órgãos. Segundo o gabinete, no entanto, ainda não há previsão de quando Moraes deve decidir sobre o processo.

Entre os traficantes que poderiam voltar para o RJ estão:

Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar: condenado a quase 320 anos de prisão por tráfico de drogas, associação criminosa e homicídios
Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco: preso pela morte do jornalista Tim Lopes
Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP: comandava o tráfico no Alemão e teria ordenado onda de ataques no Rio em 2010
Antônio Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha: preso em Rondônia, ordenou a invasão à Rocinha há uma semana.

Repercussão

O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), afirmou que vai solicitar que chefes do tráfico continuem presos em outros estados, contrariando o pedido da Defensoria.

"Nós vamos pedir para eles continuarem lá [nos presídios federais]. O presidente [da Câmara] Rodrigo Maia já avisou que vai ao ministro [do STF] Alexandre de Moraes. A gente viu que o próprio Nem se comunicou de lá do presídio federal, então não é trivial a gente lidar", disse o governador nesta sexta-feira (29).

Ministro da Defesa

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, se manifestou contra o pedido da Defensoria: "Decisão absurda, decisão absolutamente desarrazoada (...) Em nenhum lugar do mundo bandido chefe de quadrilha e de alta periculosidade fica em outro lugar que não seja presídio de segurança máxima, inclusive fora do seu lugar de atuação".

Para o ministro, uma possível decisão favorável seria como "dar uma mãozinha ao crime organizado".

"Minha expectativa é que isso seja barrado [...], porque esse pedido é rigorosamente não a favor dos direitos humanos, mas a favor da bandidagem, das quadrilhas e dos criminosos que matam, que sequestram e que infelicitam não apenas o Rio de Janeiro, mas Brasil afora", disse Jungmann.

O ministro Gilmar Mendes teve discurso semelhante ao de Alexandre de Moraes. "Certamente isso será devidamente avaliados e o Tribunal tem levado em conta os aspectos ligados à segurança (...) Já houve outras decisões nesse sentido, inclusive da Justiça Federal, e o Tribunal acho que certamente vai levar em conta as questões associadas a segurança, inclusive do Rio de Janeiro", declarou o ministro do STF.

Maia diz que fará apelo

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, disse que vai conversar com o ministro do STF Alexandre de Moraes para pedir que ele não acate o pedido da Defensoria.

"Eu já pedi uma audiência ao ministro Alexandre Moraes, estarei com ele na terça-feira, às 13h, para pedir que ele não tome nenhuma decisão. Fazer um pleito como carioca, como fluminense, que ele não tome essa decisão, [não] atenda esse apelo da Defensoria, porque isso será muito ruim pro Rio de Janeiro. Vai ampliar ainda mais essa instabilidade na área de segurança."

O juiz responsável pelos presídios do Rio, Rafael Estrela, diz que está preocupado com o retorno dos chefes do tráfico.

"A gente precisa ter uma certa cautela ao analisar o retorno desses presos de maneira coletiva, já que são presos que durante anos e anos comandaram comunidades no Rio de Janeiro com alto índice de violência", argumentou o juiz da Vara de Execuções Penais.



G1

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