A redenção começou a ocorrer em 2014, quando a TAF, empresa cearense que é a atual dona do avião, recebeu o primeiro contato de integrantes do governo alemão manifestando interesse em repatriá-lo. As negociações começaram e, em 24 de maio de 2017, um acordo foi firmado. A companhia concordou em ceder o Boeing àquele país, desde que haja uma referência ao fundador da TAF, João Ariston Pessoa de Araújo, morto em 2011, no local em que a aeronave for exibida. A ideia dos europeus é transportá-la em dois outros aviões maiores, do modelo Antonov, até o fim deste mês. Nas últimas semanas, o desmonte de peças vem ocorrendo. A Infraero receberá da Alemanha cerca de R$ 76 mil referentes a taxas pelo período em que o avião ficou parado no aeroporto. Já os valores desembolsados pela nação germânica para levar a máquina de volta não foram revelados.
“Quem sabia bem onde se encontrava essa aeronave era a polícia alemã, porque eles sempre estavam com a lembrança daqueles eventos horríveis de 1977 e tinham vontade de adquirir só uma peça para marcar os 40 anos dos acontecimentos. Mas, quando começou a negociação, nosso ministro soube da estada do avião em Fortaleza e pediu à embaixada e ao Consulado Geral do Recife que procurássemos saber quais seriam as condições para adquirir a aeronave”, relembra a cônsul geral da República Federal da Alemanha para o Nordeste do Brasil, Maria Könning-de Siqueira Regueira.
Sediada no Recife, a representante do governo alemão vem acompanhando os passos recentes do processo. Há pouco mais de uma semana, esteve em Fortaleza e presenciou a retirada do leme do avião. Encontrou o copiloto do voo de 1977, trazido ao Brasil pelos produtores de um documentário. “Ele estava muito impressionado, muito emocionado de ver aquilo e também antigos passageiros que foram trazidos. Para mim, foi emocionante. Lembro-me daquela época. Eu era jovem, estudante, estou sentindo ainda hoje o medo, o terror, que havia naquele Outono Alemão [período de 44 dias marcado pela luta entre o governo daquele país e terroristas]. Para nós, o avião é um símbolo da luta contra o terrorismo. Representa que a Alemanha defende seus valores, uma sociedade livre, a liberdade, o estado de direito, o nosso modo de vida. Isso vale hoje tanto quanto nos anos 70“, afirma.
Há 40 anos, quando os acontecimentos históricos se desenrolaram, o Landshut pertencia à empresa aérea alemã Lufthansa. O voo LH 181, entre Palma de Maiorca, na Espanha, e Frankfurt, no país germânico, deveria durar apenas duas horas, mas teve o curso mudado quando passava pelo espaço aéreo francês, momento em que o sequestro foi anunciado. Os quatro criminosos eram integrantes da Frente Popular pela Libertação da Palestina e exigiam a liberdade de 11 membros da Fração do Exército Vermelho (RAF) presos numa cadeia de segurança máxima na Alemanha. Pelo resgate, também foi ordenado o pagamento de US$ 15 milhões. Os sequestradores ameaçavam explodir a aeronave caso não fossem atendidos.
Os 86 passageiros e cinco tripulantes foram feitos reféns no dia 13 de outubro. Até que as negociações acontecessem, o avião pousou em cidades de seis países para ser abastecido, começando por Roma. Vários aeroportos recusaram-se a recebê-lo, o que aumentou a tensão a bordo e, por vezes, levou o piloto Jürgen Schumann a chegar ao limite do que o combustível permitia antes de descer, enfrentando barreiras feitas nas pistas por policiais e militares. Conforme relatos de sobreviventes à imprensa alemã, no terceiro dia, o banheiro fedia, faltava comida e as incertezas só aumentavam.
Depois de passar por Lárnaca (Chipre), pelo Bahrein e por Dubai (Emirados Árabes), o voo LH 181 chegou a um ponto decisivo em Áden, no Iémen. Devido a um pouso forçado sobre uma pista de terra, o piloto foi autorizado a desembarcar para analisar avarias, mas teria entrado em contato com autoridades locais. Por ter demorado a voltar para o avião, foi morto com um tiro pelo líder dos sequestradores, o palestino Zohair Youssif Akache, autointitulado capitão Mahmud. O corpo foi levado a bordo, “cheirando a sangue e morte“, como contou a comissária Gabriele Dillmann, sobrevivente da ação terrorista, a uma publicação sobre o caso. O copiloto Jürgen Vietor teve que assumir o comando do Boeing até Mogadíscio, na Somália.
Lá, o grupo criminoso fez a aeronave permanecer em solo por várias horas e concedeu prazos para que as exigências fossem cumpridas, acreditando que seus companheiros haviam sido libertados da prisão, como lhes havia sido dito durante as negociações. Foi o tempo necessário para que, em 18 de outubro, por meio da Operação Fogo Mágico, esquadrões alemães aproveitassem a distração e o cansaço dos sequestradores para entrar no Landshut. Três dos quatro terroristas morreram no confronto. Alguns passageiros e uma tripulante tiveram ferimentos. Todos seguiram em outro avião para Frankfurt. Os membros da RAF pela libertação dos quais foi motivado o sequestro se suicidaram na cadeia após saberem do fracasso dos atos.
Mesmo depois de ser cenário daqueles eventos de horror, o Landshut seguiu em operação pela Lufthansa até ser vendido, em 1985. Ele passou por várias companhias aéreas antes de ser adquirido pela TAF, em 2002. Na empresa cearense, o avião ainda fez rotas regionais com passageiros, mas encerrou a carreira, em 2009, fazendo basicamente transporte de cargas. Desde então, ficou estacionado no aeroporto de Fortaleza, virando sucata.
O comandante João Ariston Pessoa de Araújo Filho, dono da TAF, diz que nem ele nem seu pai sabiam que o avião que a empresa havia comprado tinha um passado tão marcante. Ele conta que se impressionou com o interesse dos alemães em preservar essa parte dolorosa de sua história. “Não deixa de ser uma coisa interessante, levando em consideração que, aqui no Brasil, a gente não tem essa cultura de preservar tanto. Me impressionou muito a forma como eles [alemães] dão valor. É uma aeronave que vai ficar para o resto da história, e o custo e a logística necessários para transportar esse avião não são pouca coisa. É algo que só países desenvolvidos e que preservam sua história estão dispostos a fazer”, comenta.
A ideia de levar o Landshut até o fim deste mês é para que ele chegue à Alemanha a tempo do marco dos 40 anos do sequestro. O trabalho para restaurá-lo, feito em parceria com a Lufthansa, deve levar muito mais tempo. Quando estiver pronto, o avião será exposto no Museu Aeroespacial de Friedrichshafen, no sul do país. Isso se outra cidade não conseguir arrebatá-lo para suas dependências. Flensburg, ao norte, também mostrou interesse.
Para a cônsul geral da Alemanha no Nordeste do Brasil, Maria Könning-de Siqueira Regueira, esses esforços para a preservação mostram o interesse de seu país em passar uma mensagem ao mundo. “É um trabalho importantíssimo para mostrar às gerações atuais que não se pode esquecer o que aconteceu para evitar que aconteça de novo. No caso da aeronave, é para mostrar a quem tiver interesse que a nossa democracia é o mais alto valor que nós temos na Alemanha e na Europa e que vamos fazer tudo para defendê-la. Essa é a mensagem que essa repatriação quer passar”, declara.
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