Janot deixa a PGR (Procuradoria-Geral da República) no próximo dia 17, depois de quatro anos à frente do Ministério Público Federal.
"Alguém disse: 'Você é um homem de muita coragem'. Eu pensei: 'Será que sou?' Eu pensei que não tenho coragem nenhuma, eu tenho é medo, e o medo nos faz alerta", disse.
"Medo de quê? De errar muito e decepcionar as instituições. As questões que enfrentei, enfrentei por medo de errar, de me omitir, de decepcionar minha instituição mais do que por coragem de enfrentar os desafios", afirmou Janot.
O procurador-geral será substituído no cargo por Raquel Dodge, nomeada no mês passado pelo presidente Michel Temer. Dodge também é conselheira do CSMPF e estava na sessão.
No pronunciamento desta segunda, quando anunciou a abertura de uma investigação que pode cancelar os benefícios do acordo de delação da JBS, Janot abriu sua fala com uma citação em inglês: "The only easy day was yesterday" (o único dia fácil foi ontem, em tradução livre).
Na sessão do CSMPF desta terça, o procurador retomou o tom de dificuldade e disse se sentir em uma montanha-russa, com altos e baixos.
CASO JBS
A PGR abriu procedimento para revisar os acordos de três dos sete delatores do grupo J&F, que controla a JBS: Joesley Batista, um dos donos, Ricardo Saud e Francisco de Assis.
Para Janot, há indícios de omissão de informações sobre práticas de crimes no processo de negociação do acordo. O problema surgiu após os delatores entregarem à PGR, na semana passada, novos áudios.
Em um deles, de cerca de quatro horas, entre Joesley e Saud -que aparentemente não sabiam que estavam se gravando-, há citações a integrantes da PGR e do STF (Supremo Tribunal Federal).
"Áudios com conteúdo gravíssimo foram obtidos na quinta-feira [31]. A análise de tal gravação revelou diálogo entre dois colaboradores com referências indevidas à PGR e ao Supremo", disse Janot na segunda-feira.
"Tais áudios também contêm indícios, segundo esses dois colaboradores, de conduta em tese criminosa atribuída ao ex-procurador Marcello Miller, que ao longo de três anos foi auxiliar do gabinete do procurador-geral."
O procurador-geral informou que há suspeitas de que Miller tenha ajudado a JBS a confeccionar uma proposta de colaboração.
Na gravação, Saud diz que já estaria "ajeitando" a situação do grupo J&F com Miller e que o então procurador estaria "afinado" com eles.
Em um trecho, os delatores falam que esperavam que Miller facilitasse o caminho junto à PGR, "inclusive sugerindo futura sociedade em escritórios de advocacia em troca no processo de celebração dos acordos de colaboração premiada", informou a Procuradoria.
Miller pediu sua exoneração do Ministério Público Federal em fevereiro e saiu em 5 de abril. Logo depois, foi trabalhar como sócio no escritório Trench, Rossi e Watanabe, em São Paulo, contratado para fazer o acordo de leniência (de pessoa jurídica) da J&F. Miller e o escritório foram chamados a prestar esclarecimentos à PGR.
FOLHAPE



